Para o médico-veterinário, conhecer a farmacologia do CBD é fundamental para interpretar as evidências disponíveis e avaliar a relação entre potenciais benefícios e riscos. A ausência dos efeitos intoxicantes típicos do THC não significa que o canabidiol seja isento de eventos adversos.
O que é o canabidiol e como ele atua nos animais?

O canabidiol (CBD) é um fitocanabinoide encontrado na Cannabis sativa. Diferentemente do delta-9-tetra-hidrocanabinol (THC), não apresenta o perfil intoxicante característico desse composto.
O CBD modula diferentes vias de sinalização celular, incluindo mecanismos associados ao Sistema Endocanabinoide (SEC), presente nos mamíferos.
O SEC é constituído por endocanabinoides, receptores e enzimas envolvidas em sua síntese e degradação. Entre seus componentes mais estudados estão os receptores CB1 e CB2.
Entretanto, a farmacologia do CBD não se resume à ativação direta desses receptores. Pesquisas descrevem interações com diferentes alvos moleculares, cujas contribuições para os efeitos clínicos ainda não estão completamente esclarecidas.
A identificação de mecanismos farmacológicos, isoladamente, não estabelece a eficácia terapêutica do composto para uma condição clínica específica.
Para compreender melhor os mecanismos envolvidos na ação dos fitocanabinoides, é importante conhecer o Sistema Endocanabinoide e sua participação em diferentes processos fisiológicos.
Quais são as diferenças entre cães e gatos na resposta ao CBD?
Cães e gatos apresentam particularidades fisiológicas e metabólicas que podem influenciar a absorção, a distribuição, o metabolismo e a eliminação de medicamentos.
Por isso, os resultados de pesquisas realizadas em cães não devem ser automaticamente extrapolados para gatos.
O que os estudos mostram em cães?
A literatura científica apresenta maior quantidade de estudos farmacocinéticos e de segurança realizados em cães.
Um estudo publicado no Journal of Veterinary Internal Medicine, em 2024, avaliou a tolerabilidade do CBD durante 36 semanas em 18 cães da raça Beagle, adultos e saudáveis.
Os pesquisadores observaram aumento da atividade sérica da fosfatase alcalina nos grupos que receberam CBD. No grupo com maior exposição, também houve maior frequência de fezes amolecidas.
Os autores não identificaram evidências laboratoriais de lesão hepática nas condições investigadas, mas recomendaram o monitoramento da função hepática durante o uso prolongado.
Esses resultados contribuem para a compreensão da tolerabilidade em cães saudáveis, mas não comprovam segurança equivalente em animais com doenças preexistentes ou em uso de múltiplos medicamentos.
E quanto aos gatos?
Em gatos, as evidências científicas disponíveis são mais restritas.
Pesquisas farmacocinéticas e de tolerabilidade relataram manifestações como hipersalivação, movimentos de sacudir a cabeça e alterações comportamentais durante a administração de determinadas formulações.
Esses eventos precisam ser interpretados considerando as características do produto, a forma de administração e a exposição aos canabinoides.
Uma revisão de 2025 destacou que, entre os estudos incluídos sobre eficácia e segurança de produtos à base de Cannabis em cães e gatos, apenas dois abordavam felinos.
Portanto, não é adequado utilizar dados obtidos em cães como comprovação de segurança ou eficácia do CBD em gatos.
O que avaliar antes de considerar o canabidiol?

A avaliação deve começar pelo diagnóstico e pelas condições clínicas do animal, considerando a indicação terapêutica antes da seleção de uma formulação.
Antes de considerar o CBD, o médico-veterinário precisa avaliar a pertinência da intervenção, os tratamentos disponíveis e a qualidade das evidências científicas para a condição investigada.
Entre os principais fatores a serem considerados estão:
- Diagnóstico e histórico clínico: condição apresentada, evolução dos sinais clínicos e tratamentos anteriores.
- Idade e condição fisiológica: atenção a populações pouco representadas nos estudos.
- Comorbidades: especialmente condições que possam alterar o metabolismo de medicamentos.
- Função hepática: avaliação conforme os riscos individuais e o contexto clínico.
- Medicamentos concomitantes: identificação de possíveis interações farmacológicas.
- Qualidade do produto: concentração, composição, rastreabilidade e documentação analítica.
Também é importante considerar a existência de tratamentos convencionais com evidências mais consistentes.
O canabidiol não deve ser interpretado como substituto automático de terapias estabelecidas.
Além da avaliação individualizada, o médico-veterinário precisa conhecer as exigências legais e os critérios envolvidos na prescrição segura de Cannabis medicinal, respeitando as particularidades da prática veterinária.
Quais interações medicamentosas do CBD veterinário merecem atenção?
As interações medicamentosas constituem um aspecto importante da avaliação de segurança do canabidiol em cães e gatos.
O CBD pode interferir em vias metabólicas mediadas por enzimas hepáticas, incluindo componentes do sistema do citocromo P450.
Uma interação farmacocinética ocorre quando uma substância modifica processos como absorção, distribuição, metabolismo ou eliminação de outra.
Já uma interação farmacodinâmica envolve a combinação de efeitos farmacológicos, mesmo sem alteração das concentrações plasmáticas dos medicamentos.
Quais medicamentos exigem maior atenção?
O médico-veterinário deve investigar especialmente medicamentos que:
- sejam metabolizados por vias enzimáticas potencialmente compartilhadas;
- possuam margem terapêutica estreita;
- apresentem efeitos sedativos ou outros efeitos sobre o sistema nervoso central;
- estejam associados a alterações hepáticas ou exijam monitoramento laboratorial.
Anticonvulsivantes e outros medicamentos utilizados em tratamentos prolongados merecem avaliação individualizada.
Entretanto, nem todas as interações sugeridas por pesquisas laboratoriais foram demonstradas clinicamente em cães ou gatos.
A identificação de uma interação potencial não permite prever, isoladamente, sua intensidade ou repercussão clínica.
Por isso, a avaliação do histórico farmacoterapêutico completo e o acompanhamento clínico do animal são fundamentais.
Quais efeitos adversos foram observados em cães e gatos?
Os eventos adversos descritos na literatura variam conforme a espécie, a formulação, a exposição ao CBD e a duração dos estudos.
Entre os achados relatados estão alterações gastrointestinais, manifestações comportamentais e alterações em parâmetros laboratoriais.
| Aspecto de segurança | Cães | Gatos |
|---|---|---|
| Alterações gastrointestinais | Fezes amolecidas e outros sinais relatados | Evidências mais limitadas |
| Manifestações clínicas e comportamentais | Letargia ou sedação em determinados contextos | Hipersalivação, movimentos de cabeça e letargia em alguns estudos |
| Parâmetros hepáticos | Elevação de fosfatase alcalina observada em pesquisas | Dados heterogêneos e mais restritos |
| Segurança do uso prolongado | Existem estudos, mas com limitações | Evidências ainda insuficientes |
A elevação da fosfatase alcalina observada em cães não representa, isoladamente, diagnóstico de lesão hepática.
Sua interpretação depende do contexto clínico e de outros parâmetros laboratoriais.
Da mesma forma, resultados de estudos de tolerabilidade em animais saudáveis não garantem ausência de eventos adversos em pacientes com doenças crônicas.
Como avaliar a qualidade dos produtos contendo CBD?

A qualidade da formulação constitui um componente essencial da avaliação de segurança clínica.
Produtos descritos comercialmente como contendo canabidiol podem apresentar diferenças na concentração, na composição e na presença de outros canabinoides.
O médico-veterinário deve considerar a procedência, a rastreabilidade e a documentação analítica disponível.
O que verificar antes da utilização?
Entre os aspectos que devem ser verificados estão:
- concentração de CBD e sua correspondência com as informações declaradas no rótulo;
- identificação de outros canabinoides, incluindo THC;
- composição dos excipientes e do veículo;
- análises de contaminantes, quando aplicáveis;
- identificação do lote e prazo de validade;
- condições de armazenamento;
- situação regulatória do produto.
A presença de THC exige atenção específica, pois esse composto apresenta características farmacológicas diferentes das do CBD e pode representar riscos à saúde dos animais.
Um laudo analítico contribui para avaliar a composição do produto, mas não substitui a comprovação de eficácia, segurança ou conformidade regulatória.
O que diz a regulamentação brasileira?
A regulamentação brasileira estabelece condições específicas para a prescrição médico-veterinária de medicamentos e produtos de Cannabis com autorização sanitária e regularizados para comercialização no território nacional.
A RDC nº 936/2024 alterou a Portaria SVS/MS nº 344/1998, e normas posteriores, incluindo a RDC nº 985/2025, atualizaram o texto normativo.
A prescrição deve observar as exigências de controle especial, a finalidade medicinal e as disposições aplicáveis ao uso veterinário.
É importante distinguir os produtos regularizados para comercialização no Brasil daqueles obtidos por outras modalidades de acesso.
A RDC nº 660/2022, relativa à importação excepcional por pessoa física, não deve ser interpretada como autorização geral de importação para uso veterinário.
O que dizem as evidências científicas sobre o uso veterinário do CBD?
Uma revisão sistemática publicada em 2025 avaliou pesquisas sobre produtos à base de Cannabis utilizados em cães e gatos.
Os autores identificaram 22 artigos que investigaram formulações predominantemente contendo CBD em condições como osteoartrite, epilepsia, dermatite atópica, dor pós-operatória e alterações comportamentais.
Embora alguns estudos tenham relatado resultados favoráveis, os pesquisadores destacaram limitações relacionadas à segurança do uso prolongado, à definição de doses e à consistência das evidências.
Uma revisão publicada em 2026 também discutiu possíveis aplicações do CBD na clínica de pequenos animais, destacando a necessidade de interpretar os resultados conforme a espécie, a formulação e o desenho dos estudos.
Como interpretar os diferentes tipos de evidência?
É importante distinguir três objetivos de investigação:
- Estudos farmacocinéticos: avaliam os processos de absorção, distribuição, metabolismo e eliminação do CBD pelo organismo.
- Estudos de segurança e tolerabilidade: investigam eventos adversos e alterações clínicas ou laboratoriais associadas à exposição ao composto.
- Ensaios clínicos de eficácia: avaliam se determinada intervenção produz benefícios mensuráveis para uma condição específica.
Resultados favoráveis de tolerabilidade não constituem, isoladamente, comprovação de eficácia terapêutica.
Da mesma forma, resultados favoráveis em pequenos ensaios clínicos precisam ser interpretados considerando o tamanho da amostra, a existência de grupo controle, a duração do acompanhamento e as limitações metodológicas.
Como acompanhar a segurança durante o uso clínico?
O acompanhamento deve ser individualizado conforme a condição clínica, os riscos identificados e os medicamentos utilizados pelo animal.
A avaliação pode incluir:
- monitoramento da resposta clínica e da tolerabilidade;
- investigação de alterações gastrointestinais e comportamentais;
- avaliação de possíveis interações com medicamentos concomitantes;
- exames laboratoriais quando clinicamente indicados;
- registro e avaliação de possíveis eventos adversos;
- reavaliação periódica da relação entre benefícios e riscos.
Não existe um protocolo universal de monitoramento aplicável indistintamente a todos os cães e gatos.
A necessidade e a frequência das avaliações devem ser determinadas pelo médico-veterinário responsável.
Conclusão
O canabidiol em cães e gatos constitui uma área de investigação na Medicina Veterinária, cuja aplicação clínica requer avaliação criteriosa das evidências disponíveis.
Os estudos fornecem dados sobre farmacocinética, tolerabilidade e possíveis aplicações terapêuticas, especialmente em cães. Entretanto, persistem lacunas relacionadas à segurança do uso prolongado, às interações medicamentosas e aos desfechos clínicos em gatos.
A prescrição responsável depende de diagnóstico adequado, avaliação individualizada, qualidade do produto, interpretação crítica das evidências e acompanhamento médico-veterinário.
O desenvolvimento de estudos clínicos com maior rigor metodológico poderá esclarecer quais formulações, populações e condições clínicas apresentam benefícios e perfis de segurança adequados.
Perguntas frequentes
Estudos indicam tolerabilidade do CBD em determinadas condições, mas isso não significa ausência de riscos. A segurança depende da espécie, da formulação, das condições clínicas e dos medicamentos utilizados. Em gatos, as evidências ainda são mais limitadas.
Entre os eventos relatados estão alterações gastrointestinais, sonolência, letargia e alterações laboratoriais. Em cães, alguns estudos observaram elevação da fosfatase alcalina. A ocorrência desses efeitos depende da dose, da formulação e das condições de exposição investigadas.
Sim. Existem potenciais interações farmacológicas, especialmente envolvendo vias de metabolismo hepático. Entretanto, nem todas as interações identificadas experimentalmente foram confirmadas clinicamente em cães e gatos.
Não se deve presumir que uma formulação estudada em cães apresente o mesmo perfil de segurança em gatos. As diferenças entre espécies exigem avaliação específica, e os resultados científicos não devem ser automaticamente extrapolados.
Sim, desde que sejam observadas as condições previstas na regulamentação brasileira, os limites da atuação profissional e os requisitos aplicáveis à categoria do produto. Isso não significa que qualquer produto contendo CBD esteja autorizado para uso veterinário.
Sim. O acompanhamento permite avaliar a resposta clínica, identificar possíveis eventos adversos e verificar a necessidade de exames laboratoriais conforme os riscos individuais. O monitoramento deve ser definido pelo médico-veterinário responsável.
1. Moreno-López N, Moreno-López C, Amariles P. Cannabis-based products for medicinal use in dogs and cats: a systematic review. J Small Anim Pract. 2025;66(12):855-870. doi: 10.1111/jsap.13913.
2. Corsato Alvarenga I, Wilson KM, McGrath S. Tolerability of long-term cannabidiol supplementation to healthy adult dogs. J Vet Intern Med. 2024;38(1):326-335. doi: 10.1111/jvim.16949.
3. Sano T. Cannabidiol in small animal practice: current evidence, clinical applications and practical recommendations for dogs and cats. J Small Anim Pract. 2026. Publicação antecipada. doi: 10.1111/jsap.70208.
4. Niño Cital S, Wakshlag J, Kennedy A, Tittle D, Petty M. Cats and cannabinoids: past, present and future. J Feline Med Surg. 2025;27. doi: 10.1177/1098612X251365392.
5. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (BR). Produtos à base de Cannabis para uso em animais. Portal da Anvisa.
6. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (BR). RDC nº 985/2025, que atualiza disposições de controle especial.
Aprofunde seus conhecimentos com a Vigo Academy
A Formação em Cannabis Medicinal para Médicos-Veterinários da Vigo Academy oferece aprofundamento em Sistema Endocanabinoide, farmacologia dos canabinoides, interpretação de evidências, segurança e aspectos relacionados à prática clínica. A proposta é contribuir para uma atuação profissional fundamentada no conhecimento científico e na avaliação responsável das evidências disponíveis.





