Nesses casos, a recorrência de crises, a ocorrência de episódios em cluster ou status epilepticus, além dos efeitos adversos dos medicamentos, impactam diretamente a qualidade de vida do animal e de seus tutores, frequentemente exigindo a busca por abordagens terapêuticas complementares. É nesse cenário que a Cannabis medicinal, especialmente o Canabidiol (CBD), tem ganhado destaque como potencial adjuvante no controle das crises.
O que caracteriza a epilepsia refratária em cães?
A definição de epilepsia refratária na medicina veterinária segue princípios semelhantes aos da medicina humana, sendo caracterizada pela falha em alcançar controle adequado das crises mesmo após o uso de pelo menos dois anticonvulsivantes em doses terapêuticas apropriadas.
Essa condição evidencia limitações farmacológicas importantes dos tratamentos disponíveis. A persistência da atividade epiléptica está associada a alterações neurobiológicas, incluindo hiperexcitabilidade neuronal, disfunção sináptica e desequilíbrio entre neurotransmissores excitatórios e inibitórios — fatores que fundamentam o interesse por novas abordagens terapêuticas.
Sistema Endocanabinoide e epilepsia
O Sistema Endocanabinoide (SEC) é um modulador crucial da excitabilidade neuronal. A ativação dos receptores canabinoides, especialmente CB1, desempenha papel relevante na regulação da liberação de neurotransmissores, como o glutamato, contribuindo para a redução da hiperexcitabilidade cerebral.
Além disso, os canabinoides influenciam canais iônicos e processos sinápticos, promovendo um efeito estabilizador sobre a atividade neuronal. Esses mecanismos fornecem uma base fisiopatológica consistente para o uso do CBD no manejo da epilepsia, uma vez que esse fitocanabinoide atua de forma indireta sobre o SEC, além de interagir com outros alvos moleculares envolvidos na modulação da excitabilidade neuronal.
Evidências clínicas do uso de CBD em cães
As evidências mais robustas sobre o uso do CBD em cães com epilepsia refratária têm surgido nos últimos anos. O estudo conduzido por Rozental et al. (2023), um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, demonstrou uma redução de 24,1% nos dias com crises na dose de 9 mg/kg/dia, em comparação ao placebo. Um aspecto importante foi a ausência de interações clinicamente significativas com anticonvulsivantes concomitantes, reforçando a viabilidade do uso do CBD em protocolos multimodais. Em contrapartida, doses mais baixas não apresentaram eficácia significativa, sugerindo uma relação dose-dependente no efeito anticonvulsivante.
O estudo de Garcia et al. (2022), utilizando extratos ricos em CBD e CBDA, também demonstrou redução na frequência de crises em cães com epilepsia refratária, especialmente quando considerado o desfecho clínico de redução superior a 50% na frequência das crises. Foi observada estabilidade dos níveis séricos dos anticonvulsivantes, indicando que o CBD, quando bem manejado, não compromete a farmacocinética das terapias convencionais.
Revisões mais recentes, como a de Jensen et al. (2025), apontam que, embora os resultados sejam promissores, ainda existe heterogeneidade entre os estudos, especialmente em relação às formulações utilizadas, doses administradas e desenhos metodológicos. Essa variabilidade limita a padronização de protocolos clínicos, evidenciando a necessidade de mais estudos controlados e de longo prazo.
Segurança e perfil de efeitos adversos
No que diz respeito à segurança, o CBD apresenta, de modo geral, um perfil favorável em cães, particularmente quando comparado a formulações contendo Tetrahidrocanabinol (THC). Os efeitos adversos relatados são, em sua maioria, leves a moderados, incluindo distúrbios gastrointestinais e letargia.
No entanto, um aspecto que merece atenção clínica é a elevação de enzimas hepáticas, especialmente ALT, observada em uma parcela dos pacientes. No estudo de Rozental et al. (2023), aproximadamente 12,8% dos cães apresentaram aumento significativo dessa enzima, o que reforça a necessidade de monitoramento laboratorial periódico durante o tratamento.
Quando considerar a Cannabis na prática clínica veterinária?
A decisão de introduzir o CBD na prática clínica deve ser baseada em critérios bem definidos. Em geral, sua indicação é mais apropriada em casos de epilepsia refratária confirmada, especialmente quando há:
- Falha terapêutica com múltiplos anticonvulsivantes
- Presença de efeitos adversos limitantes dos FAEs convencionais
- Ocorrência de crises frequentes e de difícil controle
Nesses cenários, o CBD pode contribuir para a redução da frequência e da intensidade das crises, além de potencialmente melhorar a qualidade de vida do paciente.
Considerações farmacológicas e perspectivas futuras
Do ponto de vista farmacológico, é importante considerar que o CBD apresenta variabilidade significativa na farmacocinética entre indivíduos, o que pode exigir ajustes de dose baseados na resposta clínica. Além disso, sua metabolização hepática por enzimas do citocromo P450 levanta a possibilidade de interações medicamentosas, especialmente com fármacos como o fenobarbital, exigindo atenção por parte do clínico.
O crescente interesse científico tem impulsionado a realização de estudos mais robustos, e há hipóteses, como o efeito entourage, que sugerem que formulações de espectro completo possam oferecer benefícios adicionais em relação aos isolados. Em síntese, o CBD pode ser considerado como uma ferramenta terapêutica no manejo da epilepsia refratária em cães, com evidências que sustentam seu uso como terapia adjuvante — sempre de forma criteriosa, individualizada e baseada em evidências, acompanhada de monitoramento rigoroso.
Perguntas frequentes
A epilepsia refratária é caracterizada pela falha em alcançar controle adequado das crises mesmo após o uso de pelo menos dois anticonvulsivantes em doses terapêuticas apropriadas. Estima-se que até 30% dos cães com epilepsia idiopática evoluam para essa condição, que impacta diretamente a qualidade de vida do animal e de seus tutores.
Sim, com base em evidências clínicas disponíveis. O estudo de Rozental et al. (2023) demonstrou redução de 24,1% nos dias com crises na dose de 9 mg/kg/dia de CBD em cães com epilepsia idiopática refratária. Garcia et al. (2022) também observaram redução na frequência de crises com extratos ricos em CBD e CBDA. A relação é dose-dependente, com doses baixas não apresentando eficácia significativa.
De modo geral, o CBD apresenta perfil favorável quando usado como adjuvante. Os estudos não observaram interações clinicamente significativas com anticonvulsivantes como fenobarbital. O principal ponto de atenção é a elevação de enzimas hepáticas (especialmente ALT), observada em aproximadamente 12,8% dos cães no estudo de Rozental et al. (2023), o que reforça a necessidade de monitoramento laboratorial periódico.
Os estudos mais robustos utilizaram doses de 9 mg/kg/dia de CBD, que demonstraram eficácia significativa na redução de crises. Doses mais baixas não apresentaram o mesmo resultado, sugerindo relação dose-dependente. A titulação deve ser individualizada, com ajustes baseados na resposta clínica e no monitoramento de efeitos adversos.
Não. O CBD é indicado como terapia adjuvante, não substitutiva. Os estudos disponíveis avaliaram seu uso em associação com anticonvulsivantes convencionais como fenobarbital e brometo de potássio. A incorporação do CBD deve ser feita de forma criteriosa e sempre dentro de um protocolo terapêutico multimodal supervisionado pelo médico-veterinário.
- Rozental AJ, et al. Randomized, placebo-controlled trial of cannabidiol for treatment-resistant seizures in dogs. Journal of Veterinary Internal Medicine. 2023. DOI: 10.1111/jvim.16928
- Garcia GAS, et al. Antiseizure effect of cannabidiol-rich cannabis extract in dogs with idiopathic epilepsy. Frontiers in Veterinary Science. 2022. DOI: 10.3389/fvets.2022.939966
- Jensen AS, et al. Cannabidiol in canine epilepsy — a systematic review. The Veterinary Journal. 2025. DOI: 10.1016/j.tvjl.2025.00234
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