Embora o SEC seja altamente conservado evolutivamente, as variações na densidade e localização dos receptores determinam como cada espécie responde aos fitocanabinoides, como o Canabidiol (CBD) e o Tetrahidrocanabinol (THC). Compreender essa biologia comparada é o primeiro passo para uma prescrição segura e eficaz dentro da clínica veterinária.
O que é o Sistema Endocanabinoide na visão veterinária?
O Sistema Endocanabinoide é uma rede complexa de sinalização celular composta por receptores (CB1 e CB2), ligantes internos (endocanabinoides) e enzimas metabólicas. Ele atua como um modulador mestre, buscando a homeostase em sistemas biológicos essenciais.
O SEC opera via sinalização sináptica retrógrada. Diferente dos neurotransmissores convencionais, os endocanabinoides (como a Anandamida) são sintetizados sob demanda a partir de precursores lipídicos da membrana pós-sináptica e viajam para trás através da fenda sináptica para se ligarem aos receptores CB1 no terminal pré-sináptico.
- Receptores CB1: Acoplados à proteína G, inibem a adenilato ciclase e modulam canais de cálcio e potássio, resultando na redução da liberação de neurotransmissores excitatórios (como glutamato) ou inibitórios (como GABA).
- Receptores CB2: Localizados predominantemente em células da linhagem mieloide (macrófagos, mastócitos) e órgãos linfoides. Sua ativação modula a liberação de citocinas pró-inflamatórias, sendo o alvo principal para patologias imunes e inflamação periférica.
De acordo com Silver (2019), o SEC está presente em quase todos os animais, exceto nos protozoários e insetos. Isso significa que, de cães a cavalos, a base fisiológica para o uso de canabinoides existe e é funcional.
Sistema Endocanabinoide em cães
A maior diferença entre humanos e cães reside na densidade de receptores CB1. Pesquisas indicam que os canídeos possuem uma concentração de receptores CB1 no cerebelo muito superior à de qualquer outra espécie estudada, incluindo o homem.
Os cães possuem uma expressão significativamente maior de receptores CB1 no cerebelo, tronco encefálico e bulbo olfatório em comparação com humanos e primatas. O THC age como um agonista parcial de alta afinidade nesses sítios, provocando perda de coordenação motora mesmo em doses que seriam subterapêuticas para outras espécies.
Essa característica neuroanatômica explica por que os cães são extremamente sensíveis aos efeitos psicotrópicos do THC. O que em humanos seria uma leve alteração, em cães pode resultar em ataxia estática — um quadro clínico de desequilíbrio e desorientação.
Por isso, o uso de produtos Full Spectrum em cães exige monitoramento rigoroso. Conforme aponta o estudo de Gamble et al. (2018), a titulação de dose deve ser lenta e individualizada para evitar efeitos adversos neurológicos.
Sistema Endocanabinoide em gatos
Se os cães são sensíveis ao THC, os gatos apresentam desafios únicos na metabolização. O metabolismo hepático dos felinos é conhecido por ser deficiente em certas vias de glicuronidação, o que afeta a forma como eliminam diversos compostos, inclusive terpenos.
A regulação do tônus endocanabinoide não depende apenas da produção, mas também da velocidade de degradação enzimática. As principais enzimas envolvidas são:
- FAAH (Amida Hidrolase de Ácidos Graxos): Principal responsável pela hidrólise da Anandamida (AEA).
- MAGL (Monoacilglicerol Lipase): Responsável pela degradação de cerca de 85% do 2-AG.
Em gatos, a atividade enzimática e as vias de glicuronidação hepática são mais lentas. Isso implica que a janela de depuração de fitocanabinoides e seus metabólitos é estendida, exigindo intervalos maiores entre doses. O trabalho de Vaughan et al. (2020) sugere que a farmacocinética do CBD em gatos é distinta da dos cães, apresentando absorção mais lenta e meia-vida diferenciada.
Além disso, o SEC dos gatos parece ter influência significativa no sistema gastrointestinal e imunológico, tornando a Cannabis uma ferramenta valiosa para doenças inflamatórias intestinais e quadros de ansiedade crônica felina.
Manejo do Sistema Endocanabinoide na medicina veterinária
A literatura moderna já não foca apenas no CB1 e CB2 ao se tratar de receptores canabinoides. A descoberta do envolvimento de outros alvos moleculares levou à concepção do Sistema Endocanabinoide Expandido, ou Endocanabinoidoma, que inclui alvos como:
- Receptores TRPV1 (Potencial de Receptor Transitório Vaniloide 1): Envolvidos na modulação da dor térmica e inflamação. O CBD atua dessensibilizando esses receptores.
- GPR55: Considerado por muitos o terceiro receptor canabinoide, envolvido na modulação da pressão arterial e densidade óssea.
- PPARs (Receptores Ativados por Proliferadores de Peroxisoma): Receptores nucleares que, quando ativados por canabinoides, modulam a expressão gênica relacionada ao metabolismo lipídico e neuroproteção.
Os ligantes como a Anandamida (AEA) e o 2-Araquidonoilglicerol (2-AG) são endocanabinoides que os veterinários devem conhecer. A degradação desses compostos pelas enzimas FAAH e MAGL também varia entre as espécies, e inibir essas enzimas pode ser, futuramente, uma via terapêutica tão importante quanto o uso direto de fitocanabinoides.
Humanos vs. animais de grande porte
Nos seres humanos, o SEC é muito estudado em relação à dor crônica e distúrbios psiquiátricos. Em contrapartida, na medicina de equinos, o foco recai sobre a modulação da inflamação sistêmica e saúde articular.
Cavalos, sendo herbívoros de grande porte, possuem um metabolismo acelerado e uma massa corporal que exige cálculos de dosagem específicos. Estudos como os citados na revisão de Hartsel et al. (2019) destacam o potencial do CBD na redução da claudicação.
Diferente dos humanos, onde se estabeleceu diferentes vias de administração de produtos à base de Cannabis, na veterinária a via transmucosa (oral) é a preferencial. Ela evita o efeito de primeira passagem hepática parcial e garante níveis plasmáticos mais estáveis para o controle da dor.
Implicações terapêuticas e segurança clínica da Cannabis em animais
A primeira lição para o médico veterinário que quer se tornar um prescritor de fitocanabinoides é que não se pode transpor a dose humana para o animal por regra de três simples. A fisiologia comparada nos mostra que o SEC animal é, muitas vezes, mais reativo que o humano.
A segurança clínica depende da escolha de produtos com certificados de análise (COA). Saber a porcentagem exata de cada canabinoide é vital para evitar a toxicose, especialmente em pacientes de pequeno porte ou com comorbidades hepáticas.
Entender as disparidades entre o SEC humano e o animal é o que separa um prescritor comum de um especialista. Cada espécie possui uma assinatura biológica única que dita as regras do tratamento. Cães, gatos e cavalos respondem de formas distintas à Cannabis medicinal — cabe ao médico veterinário dominar os principais conceitos do Sistema Endocanabinoide para promover bem-estar e qualidade de vida aos pacientes e seus tutores.
Perguntas frequentes
O SEC está presente em quase todos os animais vertebrados, exceto nos protozoários e insetos, conforme descrito por Silver (2019). Isso significa que cães, gatos, cavalos e demais espécies veterinárias possuem a base fisiológica necessária para responder aos fitocanabinoides.
Os cães possuem uma densidade significativamente maior de receptores CB1 no cerebelo, tronco encefálico e bulbo olfatório em comparação com humanos e primatas. O THC se liga com alta afinidade a esses receptores, provocando ataxia estática e desorientação mesmo em doses que seriam subterapêuticas em outras espécies.
Os gatos possuem vias de glicuronidação hepática mais lentas, o que reduz a velocidade de eliminação dos fitocanabinoides e seus metabólitos. Isso exige intervalos maiores entre doses e monitoramento cuidadoso para evitar acúmulo e toxicidade.
O Endocanabinoidoma, ou Sistema Endocanabinoide Expandido, é um conceito que amplia o SEC clássico (CB1 e CB2) para incluir outros alvos moleculares como receptores TRPV1, GPR55 e PPARs. Esses alvos adicionais explicam parte dos efeitos terapêuticos dos fitocanabinoides que não passam pelos receptores canabinoides clássicos.
A via transmucosa (oral) é a preferencial na medicina veterinária. Ela evita parcialmente o efeito de primeira passagem hepática e garante níveis plasmáticos mais estáveis, sendo especialmente importante em animais de grande porte como cavalos, onde o cálculo de dosagem deve considerar o metabolismo acelerado e a massa corporal elevada.
- Silver RJ. The Endocannabinoid System of Animals. Animals. 2019. DOI: 10.3390/ani9090686
- Gamble LJ, et al. Pharmacokinetics, Safety, and Clinical Efficacy of Cannabidiol Treatment in Osteoarthritic Dogs. Frontiers in Veterinary Science. 2018.
- Vaughan D, et al. Preliminary Investigation of the Safety of Cannabidiol-Rich Hemp Extract in Healthy Cats. Frontiers in Veterinary Science. 2020.
- Hartsel JA, et al. Cannabis in Veterinary Medicine. Nutraceuticals in Veterinary Medicine. 2019.
Aprofunde seu conhecimento em Cannabis medicinal veterinária
A Vigo Academy oferece cursos e mentorias desenvolvidos para médicos veterinários que desejam prescrever fitocanabinoides com segurança, embasamento científico e confiança clínica.






